Um clube que é patrimônio vivo da história de Governador Valadares

O Esporte Clube Democrata foi fundado em 13 de fevereiro de 1932, com o fim do Ibituruna Foot-Ball Club, time de futebol de Figueira do Rio Doce, distrito de Peçanha. Figueira do Rio Doce se emancipou de Peçanha em 1938 e adotou o nome de Governador Valadares. Quando foi fundado, o Democrata da Figueira tinha seu nome escrito da seguinte forma: Sport Club Democrata.


 

A origem do Democrata-GV remonta uma terça-feira de carnaval, dia 9 de fevereiro de 1932, quando o Ibituruna Foot-Ball Club foi jogar no povoado da Cachoeirinha (atual Tumiritinga). Para chegar até lá, a delegação e alguns torcedores, embarcaram na manhã da terça-feira (9), às 11h, no trem misto M4, na Estação Figueira. Este trem era a única opção para os figueirenses irem à Cachoeirinha e voltar no mesmo dia. O trem misto M4 chegaria em Aimorés às 17h40 e ficaria por lá para o pernoite, mas a delegação figueirense voltaria no trem de passageiros P1, que sairia de São Carlos, às 6h, e passaria pela Estação Cachoeirinha logo após o jogo, às 16h58, chegando à Figueira às 18h20.


 

Depois de quase 3 horas de viagem, o Ibituruna Foot-Ball Club desembarcou na Estação Cachoeirinha, às 12h47. Os jogadores chegaram, trocaram de roupa, foram à campo, jogaram e perderam. De goleada! O time da Figueira enfrentou o “esquadrão do Palestra”, que jogava com camisas azuis e calções brancos, e era um bom time. Quem garante é Malvino Gonçalves Caldas, o Vininho, lateral direito do Palestra, que, em 2010, contabilizava 92 anos de vida íntegra, boa saúde e uma memória de dar inveja. Tanto que concedeu entrevista ao jornalista Tim Filho e contou a história.


 

Vininho, que morava na Cachoeirinha e ajudava seu pai, José da Silva Caldas, no comércio, apesar da pouca idade, era bom de bola e teve a chance de jogar contra o Ibituruna. Ele lembra que o técnico do Palestra pediu que ele ficasse mais preso à defesa. Vininho diz que no jogo, o time da Figueira se comportou bem, jogando normalmente, tocando a bola. Mas levou uma goleada histórica: 5 x 0. “Os gols foram saindo naturalmente, com o decorrer do jogo”, disse. Mas a tranquilidade de Vininho para descrever a partida tanto tempo depois não foi a mesma que torcedores e jogadores do Ibituruna tiveram para avaliar a atuação do time. A história contada à boca miúda, é de que à época, a principal acusação contra os jogadores que levaram a “sacolada” do Palestra, é que os jogadores deixaram se levar pela folia carnavalesca e jogaram bêbados. Vininho afirma que em campo, durante o jogo, nenhum jogador do Ibituruna apresentava sintomas de ter bebido. “Isso é história”, disse ele, sobre os comentários de que o time da Figueira tinha jogado sob efeito do álcool.


 

O mecânico e ex-jogador de futebol, Marcos de Oliveira (já falecido) lembrou, em 2010, que seu tio, Agenor Virgilio de Oliveira, lhe disse que neste jogo, o time de Cachoeirinha massacrou o Ibituruna por 5 x 0, e isso foi um escândalo que fez a diretoria do Ibituruna acabar com o time.


 

Agenor disse ao sobrinho Marcos, que em 1932, ele treinava um time de garotos em um campo de futebol localizado na quadra cercada pelas ruas São Paulo, Marechal Deodoro, Caio Martins e Marechal Floriano. Com o fim do Ibituruna, o Cornélio Alves, torcedor do Ibituruna, sugeriu a formação de um novo time. Cornélio assumiu a presidência do time e Agenor, a vice-presidência. Pode vibrar Pantera Cor-de-Raça. Anotem aí o nome do novo time: Sport Club Democrata, que tinha as iniciais S.C.D.


 

Entre os diretores que se reuniam na casa de Seu Agenor estavam Chaim Salomão, Mário Rocha e Silva, Lauro Pereira, Milton Amado, Antônio Alcântara, Anastas Maraslis, Cornélio Alves Mendes e outros. Agenor também desenhou o primeiro escudo do Democrata, com as iniciais S.C.D. O “S” é o principal elemento tipográfico do escudo, com a letra “C” dentro da curva superior, e a letra “D” dentro da curva inferior. Este escudo foi usado nas camisas dos jogadores que estão na foto em pose de “pirâmide invertida”, formação clássica dos anos de 1930, não só para a pose, como no esquema tático. Nesta pose, aparecem embaixo, o goleiro (que naquela época era chamado de goal-keeper ou keeper) e os dois zagueiros. Acima, na outra linha de três, ficavam dois laterais e o centro-médio (center-half). Na linha de cima, com cinco homens, os pontas direita e esquerda, dois atacantes (interno e externo) e o centro-avante. Os primeiros a usar o uniforme com o novo escudo foram: Chaim Salomão, Melanton, Pedro Pinto e Laudelino; Hércules e César Simões; Adhemar, Didinho, Raymundo Simões, Cid Pitanga e Ulisses Amado.

 

A Pantera do Vale do Rio Doce

 

O jornalista Marcondes Tedesco, um carioca que adotou Governador Valadares como sua cidade, foi o cara que teve a sacada inteligente de escolher uma pantera como animal símbolo do Esporte Clube Democrata. Até então, o Democrata vivia uma crise de identidade quando o assunto era a mascote. O clube era chamado pelos cronistas esportivos de Governador Valadares, de Jacaré ou Esquadrão Carijó.

 

Segundo Tedesco, em 1969, a diretoria do Esporte Clube Democrata manifestou o interesse de construir uma sede social na área externa do Estádio José Mammoud Abbas, mas dentro do quarteirão cedido pela Prefeitura ao ECD, ali, de frente para a Rua Afonso Pena. Tedesco participou das reuniões que idealizavam a campanha publicitária que já tinha slogan: “Democrata é preto no branco”. Mas faltava um animal para ser a mascote. Foram muitos os nomes falados, mas Tedesco sugeriu uma pantera.

 

A justificativa apresentada por Tedesco para a escolha de uma pantera como mascote do Democrata é de uma coerência singular. O bicho não entrou na história por acaso. Há muitos e muitos anos, quando o Vale do Rio Doce era coberto por uma densa floresta que guardava uma fauna exuberante, um animal se destacava: a onça pintada. Eram milhares de exemplares vivendo na mata e bebendo água no Rio Doce. O nome científico da onça pintada é Yauaretê Panthera Onça. A coerência da escolha começa aí. A onça pintada que habitava a extensa faixa de terra onde se localiza atualmente o município de Governador Valadares, era um animal cultuado pelos legítimos donos destas terras, os índios Krenak (também chamados de Botocudos e citados nos livros de história, como ferozes e sanguinários). Os Krenak chamavam (e ainda chamam) a onça pintada de Kuparak Tek Tek.

 

Mas o animal que simboliza o Democrata não é este, é uma variação deste, de pelagem toda preta. De perto dá pra ver as mesmas pintas pretas (um pouco mais brilhante) da Tek Tek na temida Kuparak Rym. Yes! Kuparak Rym, este é o nome índigena da fera que simboliza o Esporte Clube Democrata. É o maior felino da América do Sul. Sua característica principal é demarcar o seu território com urina de um cheiro muito forte. Neste território, tanto a Tek Tekquanto a Rym, são valentes, lutam e matam. Matam para ter comida, matam para sobreviver. “É um felino guerreiro, vencedor”, disse, à época.

 

Quem fez o primeiro desenho da mascote do Democrata foi o artista plástico Epaminondas Bassi, que usou tinta nanquim e a técnica “bico de pena”. À época, ele tinha o seu ateliê na Rua Caio Martins, na área central da cidade. Epaminondas Soares dos Reis é mineiro de Governador Valadares. Além dos trabalhos de arte, geralmente pinturas e esculturas surrealistas, ele trabalha como pintor letrista fazendo faixas e cartazes. Mas como bom democratense, o trabalho do qual ele mais teve satisfação em fazer e orgulho de ter feito, foi o desenho da pantera. “Quando vi as pessoas na rua usando as camisas com o meu desenho, nossa, foi uma satisfação incrível. Eu senti muito orgulho daquilo”, disse.